Eterno recomeço
(CAPITULO II do livro “Histórias dentro da história (Tudo como antes)2020 - Autor Jailton J. Silva - Editora Autografia)
Jailton Silva
Neste texto discutiremos, algumas questões básicas que envolvem a educação, contrastando, momentos passados com atuais. Usaremos autores contemporâneos, como o professor, Mário Sergio Cortella, Paulo Freire, e abordaremos, oportunamente, também os pensadores da sociologia, Max Weber, Émile Durkheim, dentre outros, não tão famosos, mas tão importantes quanto os apresentados.
Faremos uso de frases e trechos de textos que demonstrem suas concepções sobre o assunto discutido, também usando fatos históricos que influenciaram e que ainda influenciam diretamente a cultura popular, e também a produção de educação do país.
Caminharemos ao encontro do conhecimento que nos permitirá uma visão, mesmo que ainda dependente de aprofundamento, sobre o papel da educação em relação aos pensares dominantes, e o que dizem os autores consultados, em relação à atuação dos envolvidos, governos e educadores. Sem deixar de fora a importância da discussão sobre que tipo de educados queremos, e o que esperamos deles.
Buscaremos neste enunciado, colaborar, convidar a todos que o lerem, a uma reflexão sobre o que achamos ser, e a quem estamos representando. Vamos juntos!
“[...] O fato de me perceber no mundo, com o mundo e com os outros, me põe numa posição em face do mundo que não é a de quem nada tem a ver com ele. Paulo Freire - Pedagogia da autonomia.
A educação é influenciada por questões intrinsecamente ligadas à evolução humana. Tem em sua história as marcas de encontros e desencontros ideológicos, é pensada e praticada conforme o humor do poder vigente. Ora responde às ânsias do pensar filosófico, na mais pura das suas interpretações, ora está a serviço dos chamados pensamentos hegemônicos. Entretanto, é desse conjunto de saberes e métodos que dependem o mundo e seus humanos, para se adaptarem aos processos evolutivos que eles próprios criam.
A educação, em suas várias faces, ou, as educações, são responsáveis por tornar os homens e mulheres aptos a realizarem seus sonhos e relações sociais. Mesmo às vezes contribuindo mais para a subjugação do sujeito, em detrimento de sua liberdade, ainda é a educação que proporciona ao cognitivo o poder de realização.
Segundo Fabiana Fernandes, mestra e doutorada em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2014 e 2020), a educação é sustentada por três eixos: a qualificação, a socialização e a subjetivação. A autora ressalta que o eixo da socialização é o responsável por formar pessoas que não sejam nem reprodutoras, nem destruidoras do mundo.
Nos muitos momentos do processo educacional, firmou-se a figura do educador como responsável por descobrir e ajudar os seres sociais em suas potencialidades. Porém, conforme Bourdieu, a maneira como a educação é pensada, a torna meio de reprodução das desigualdades.
O termo educação tem sido motivo para muitas discordâncias, quanto à sua razão de ser, e por vezes, conforme o humor governamental, é tratado como uma mera escolarização, enquanto acadêmicos renomados as têm como interligadas, escolarização e educação. Entretanto, a escolarização é apenas parte da educação e não pode sobrepô-la, pois essa, abre horizontes, vê e escreve o que não pode ser escrito, enquanto a escolarização necessita de outros meios para fazer sentido. A educação faz parte da vida, dá sentido e indica caminhos, ao passo que, a escolarização é como que um carro, facilita em trajetórias, encurta distancias, mas por mais longe que seja, sempre podemos ir a pé.
O que favorece o escolarizar é que essa não é atingida pela evolução, a dinâmica é sempre a mesma, lidar com elementos desprovidos de emoção, dispensa interação, para essa ação basta aluno e professor, enquanto o educar depende do encontro do educando com sua essência, a sociabilidade, por isso o investimento de todos os seguimentos sociais nesta causa, pois só um educado é capaz de produzir ou reproduzir com responsabilidade. Também são os educados que mantém a evolução, e nessa, cria novas necessidades, tudo conforme o tipo de educação recebida, se educado para a passividade, ou para a atividade.
Os sujeitos sociais, em suas educações, podem ser submetidos a um não pertencimento, caso suas atitudes e pensamentos não estejam consoantes com o pensamento vigente, embora, ainda seja a educação considerada o único meio de desenvolver, moldar o homem e despertar nele humanidade.
A chegada dos jesuítas no Brasil, em 1549, é um ponto que marcará a história do ocidente, sobre muitos aspectos. Há movimentos que ainda buscam a libertação de princípios educacionais introduzidos por essa congregação religiosa, porém, não negam sua eficácia e eficiência no que se propunham naquela época, todavia, não podemos deixar passar que em nome de uma expansão catequética, eles, os mesmos que falavam do amor de Deus pelos homens, facilitaram a inculcação em detrimento de uma cultura vivida e em curso, a cultura dos povos nativos desta terra.
O mestre em Educação , professor Luis Monteiro, no texto “Jesuítas na educação brasileira: dos objetivos e métodos até a sua expulsão”, nos ajuda na compreensão desse processo: “Foram se infiltrando aos poucos nas aldeias, levando os fundamentos de uma educação religiosa dedicada à propagação da fé e do trabalho educativo” (Azevedo, 1976, p.10) apud José Luis Monteiro da Conceição (mestre em Educação, pedagogo).
Aqueles que viram memórias, entendimento e vontade naquele povo, incumbiram-se de fazê-los esquecer de sua prática e organização social. Seu plano de ação era baseado no Ratio Studiorum - espécie de manual que padronizava as ações da companhia.
“Assim, o Ratio preceitua a formação intelectual clássica estreitamente vinculada à formação moral embasada nas virtudes religiosas, nos bons costumes e hábitos saudáveis à sociedade, explicitando de forma detalhada as modalidades curriculares das instituições escolares; o acompanhamento do desenvolvimento da aprendizagem e a promoção dos alunos; condutas e posturas respeitosas desde os que conduziam (professores) até os que aprendiam (alunos)”. Toyshima; Costa, 2012.apud José Luís Monteiro da Conceição.
Os métodos usados pelos padres eram eficazes e eficientes, pensados para atrair, coisa que falta no educar atual. Dedicavam um interesse especial pelas crianças e jovens, visto que, por sua situação de formação, os educadores entendiam que essas classes estariam mais abertas às suas inserções.
Em relação às crianças, os jesuítas tinham casas de abrigo para órfãos vindos de Portugal e esses eram usados para a atração dos curumins, isso também mostra a determinação e perícias daqueles educadores, conforme cita Menardi, 2010,(p. 159) “[...] A vinda de órfãos de Portugal contribuiu grandemente como um motivador a mais para a já necessária construção de casas (residências ou recolhimento) e representou um reforço na conversão dos índios, uma vez que os jesuítas utilizaram como estratégia de catequese e instrução os órfãos para atrair os meninos índios.” (Menardi, 2010, p. 159): apud professor José Luís Monteiro. Mestre em Educação, pedagogo e professor da Rede Municipal de Ensino
As mudanças ocorrem forçadas por um pensar, e tão somente pela necessidade por ele imposta, então, podemos apaixonadamente criticar a invasão da cultura portuguesa, facilitada em nome de Deus, a qual causou o extermínio de culturas e vidas, mas não podemos entender, imaginar, como seria a nossa sociedade sem essa invasão, por nos encontrarmos em espaço/tempo diferente, entretanto, ainda hoje, persiste a questão da imposição, vivemos colônias, invadidos, manipulados e ainda servindo de degraus em nome de ideologias, ora hegemônicas, ora pelas próprias ditas excluídas, mas, tanto A, quanto B, causam transformações imediatas ou evolutivas.
No Caderno de Histórias da educação (p. 309), com o título: Sobre a civilização ocidental, o autor José Maria, expressa-se da seguinte forma:
“(...) Cada sociedade entende o real à sua maneira, define o real para ela, tem um olhar próprio sobre o que a envolve, isto é, vive à sua maneira, cada qual com seu globo ocular específico e, portanto, com sua visão, com sua leitura. É isto que vamos encontrar na história das culturas/civilizações: princípios diferentes que moldam diferentemente o real, ou seja, a vida social, a vida. (José Maria de Paiva)
No passado ganância e ansiedade, mas, em uma aventura de redescobrir, aplicando uma filosofia fora de seu tempo, sem enxergar o futuro; na contemporaneidade, mesmo com toda epistemologia produzida, seja da psicologia, da sociologia, e também empírica, vivemos em uma eterna dicotomia. Buscamos tudo, exceto reconhecer humanidades! Entretanto, no passado ou no presente, um lugar perigoso… o alto do muro!
Não há ser vivente que consiga existir sem interferir ou influenciar na vida ao seu redor, e nesse ponto, entendemos a convergência que há entre Durkheim e Weber, quando discorrem sobre fato e ação social. Um afirma que a sociedade modela o sujeito, enquanto o outro imprime a ideia que o indivíduo é quem movimenta, influencia o seu redor, conforme sua ação, sua expressão.
Os sociólogos entendem que há uma participação do elemento social na formação e na transformação do cognitivo, e consequentemente, na cultura. Entretanto, o que nos chama a atenção é, quem são esses elementos, e como se dá essa formação, já que, todos têm um jeito de agir, também uma forma peculiar de receber as influências provindas da ação de outros, mas, independente, de quando e onde, sempre formandos e formadores.
Sendo o meio, influenciador da sua própria formação, podemos ou não, esperar uma correspondência entre os comportamentos?
A partir de que momento histórico, o povo originário do Brasil, foi agente no fato social descrito por Durkheim e/ou da ação social de Weber? Com certeza convergiremos para um ponto em que os considerados selvagens pelos colonizadores, sim, eram agentes influenciadores e influenciados em sua história, isso, se levarmos em consideração que, quando os portugueses aportaram nas terras Brasilis, já havia uma sociedade em desenvolvimento(ou desenvolvida), porém, não segundo os padrões dos pretensos novos dominantes.
O olhar eurocêntrico os identificava como selvagens, mas, até entre animais irracionais, existem padrões de organização, particular à cada espécie, e são respeitados. O que levou o olhar europeu a ver o povo e não enxergá-lo apenas como uma cultura diferente?
O doutor em Comunicação e Cultura Contemporânea pela Universidade Federal da Bahia e mestre em Sociologia, João Nunes da Silva, colabora com a discussão afirmando que todo ser é social, mas essa sociedade é questionada, se seus valores e costumes forem diferentes do padrão dominante. Em se tratando dos originários brasileiros, os seus costumes divergiam daqueles trazidos pelos invasores, daí denominados selvagens. “(...) O padrão é uma imposição jungida pelos valores, costumes e interesses hegemônicos, isto é, legitimados pelo pensamento da coletividade corroborado pela tradição constituída historicamente.” João Nunes da Silva.
Voltando à questão do poder inato de moldar, e ser moldado, temos esses parâmetros ajustados para os nossos dias, onde apesar de reconhecermos que a imposição cultural, já algum tempo, encontra contraposição produzida por um número maior de intrépidos falantes, aparentemente, só troca o termo dominação, por um eufemismo, “o preconceito”. Referimo-nos ao passado dando um tom desastroso, enquanto no presente, relativizamos e ignoramos sofrimentos. Seria por que antes os papéis eram bem definidos e de fácil identificação, o que deixava claro o pertencimento do indivíduo?
Com o advento da Revolução Industrial, do lado de cá do oceano, certas necessidades, costumes e até formas vernáculas, ganham nova leitura e chegam a confundir. Com essa nova forma de produzir e incentivo ao consumo, criou-se subdivisões e todos passam a ser vítimas escancaradamente.
Mesmo manipulados pela mesma mão, as divisões se acirram, e vem a luz o que chamamos de sistema, algo já a muito existente, mas nunca tão presente como agora. Não é algo palpável, não existe em ações visíveis, tal qual escravização do negro, ou do indígena, isso a lei já proíbe, mas, marcas deixadas no subconsciente das pessoas, as quais, mesmo longe da causa, continuam a comportar-se e a reproduzir algo similar, como se fossem uma ordem celestial. Não há lei humana que o exclua da sociedade, mas deixa evidente o tipo de educação em exercício.
Na atualidade, há até quem diga que fome é uma reação psicológica, e outros que dizem não entender como é possível passar fome no Brasil. Saímos do dito, “pobre morre pobre”, para outro senso comum que diz: “querer é poder”. O primeiro era consenso, e o segundo, uma forma de manipulação do cognitivo social, em prol da manutenção das desigualdades. O que, segundo Paulo Freire, em seu livro Pedagogia da autonomia (edição 55, p. 80) “É importante ter sempre claro que faz parte de poder ideológico dominante a inculcação nos dominados da responsabilidade por sua situação(...)”. Paulo Freire.
A invasão territorial promovida pelos portugueses, e não somente por eles, tem abrangência além da visão. O “terra à vista” supostamente ouvido nos navios chegados de Portugal, ecoou, e ganhou proporções inimagináveis, para quem chegava à terra do ouro com o intuito de enriquecer, o que só foi possível por dois pensamentos, e um meio. O pensamento mercantilista/expansionista, o pensamento religioso e apoiando a tudo isso, a educação.
A educação aceita inserções por ser temporal, e esse é o risco, já que se apoderam desse carácter adaptativo, e conforme a ideia do poder dominante, serão impressas na ação, características segregadoras, estigmatizantes e excludentes.
Há um clamor para pensarmos a educação fora da caixa, devolvendo ou afirmando, qual o verdadeiro papel e qual a área de atuação do professor, por compreender que a educação se dá a todo momento e lugar, salientando e elucidando o verdadeiro significado de educação formal, não formal e a informal. Lembrando que são campos de atuação distintos, porém imbricados.
Na busca por uma definição clara, encontramos no site Ciência em Tela (Volume 7, número 2, 2014) o artigo “Educação formal, informal e não formal na educação em ciências”, o qual cita a definição da escritora Maria da Glória Gohn
“A educação formal é aquela desenvolvida nas escolas, com conteúdos previamente demarcados; a informal como aquela que os indivíduos aprendem durante seu processo de socialização na família, bairro, clube, amigos, etc., carregada de valores e cultura, de pertencimento e sentimentos herdados; e a educação não formal é aquela que se aprende” no mundo da vida”, via os processos de compartilhamento de experiências, principalmente em espaços e ações coletivas cotidianas”.
Gohn, (2006, p. 28) apud Maria das Graças Alves Cascais e Augusto Fachín Terán.
As educações, por vezes, são confundidas e resumidas às várias formas do ensino formal, o que responde às questões econômicas, mas como essas, tornam-se como que efêmeras, e seu produto obsoleto.
No berço da educação, lá quando surgiram os sofistas, espécie de professores itinerantes que priorizavam o ensino para a retórica e oratória, a educação tinha um carácter preparatório para a vida pública e cobravam por seus ensinamentos, todavia, eram combatidos ideologicamente por Platão, discípulo de Sócrates, que acreditava só os filósofos deveriam ser governantes. Entretanto, para Sócrates, seria um grande passo o reconhecimento que nada se sabe, e a ele é atribuída a frase “Só sei que nada sei”. Sócrates, Platão e o pensar sofístico, divergiam em relação ao termo educação, e lançaram-se em busca da verdade. Mas qual verdade?
O Professor Wigvan Junior Pereira dos Santos, no Portal Educação, discorre:
“(...) Os sofistas eram considerados mestres da retórica e da oratória, acreditavam que a verdade é múltipla, relativa e mutável.(...)”
“(...)não havia um sistema público de ensino superior, então jovens que podiam pagar por instrução recorriam aos sofistas a fim de se prepararem para as dificuldades que enfrentariam na vida adulta. Uma delas, imposta pelo exercício da democracia, era a dificuldade de resolver divergências pelo diálogo, tendo em vista um interesse comum. O termo “sofista” não corresponde, portanto, a uma escola filosófica e sim a uma prática(...)”. Mundoeducacao.bol.uol.com.br/filosofia/sofistas.htm
Nos passos encontrados e considerados vitoriosos, a educação sempre esteve à mercê de humores e sonhos do poder. Ela é sempre moldada conforme os planos de conquistas de pensamentos preponderantes. Isso é percebido na Grécia Antiga, durante a Idade Média, no renascimento, também no ocidente, na época da colonização e mesmo no advento da Idade Moderna, todas são marcadas por um rompimento, mas também por uma imposição.
Mesmo nos momentos que suscitaram os defensores da reforma escolar, os ditos escolanovistas, estavam rompendo com um processo e davam início a mais um episódio.
Conforme a professora, Amélia Hamze, no artigo “Escola nova e o movimento de renovação do ensino”. As ideias da Escola nova, foram introduzidas no Brasil por Rui Barbosa em 1882, e ganha novos adeptos no século XX, na década de 30, no governo de Getúlio Vargas. Conforme a autora, esses novos integrantes do movimento, em 1932, promulgam um documento chamado “Manifesto dos pioneiros”. Esse, foi divulgado em todo o território nacional, e
objetivava, oferecer ditames para criação de políticas educacionais. Dentre os 26 assinantes ativistas estavam: Fernando de Azevedo, Lourenço Filho e Anísio Teixeira.
A elite da educação brasileira fora influenciada pelo precursor da ideia da escola nova, na América, John Dewey, o qual, conforme a professora Hamze, mantinha o pensamento de que:
“(...) a educação, é uma necessidade social. Por causa dessa necessidade, as pessoas devem ser aperfeiçoadas para que se afirme o prosseguimento social, assim sendo, possam dar prosseguimento às suas ideias e conhecimentos”. Amélia Hamze Escola Nova e o movimento de renovação do ensino - Educador Brasil Escola.
A educação é sempre evocada e moldada à luz de vieses ideológicos, e pensada para dar respostas ao momento histórico, favorecendo ao dominante situacional. Temos até aqui discutido a educação como um processo exclusivo da escola, entretanto, vemos como o tema se esvazia e não combina com o discurso , será que estamos fazendo confusão entre escolarização e educação, o que há de diferente entre eles?
Conforme o dicionário Houaiss Conciso 2012(pág. 326) educação:
1- Processo para o desenvolvimento físico, intelectual e moral de um ser humano. 2. Conjunto dos métodos empregados nesse processo; instrução, ensino 3. Desenvolvimento metódico(de faculdade, sentido, órgão, etc.) 4. Civilidade, polidez (dicio.com.br/escolarizacao/) Acesso em 17/05/2020
Escolarização: Substantivo feminino - Ação de escolarizar, de frequentar o ensino escolar, de ser alvo de algum tipo de aprendizagem: crianças em fase de escolarização.
Ação de agir ativamente no processo escolar de outra pessoa, ensinando formalmente conteúdos escolares: o Estado providenciará escolarização aos que não conseguiram vagas.
Reunião dos saberes e conhecimentos ensinados na escola: minha carreira é fruto de uma boa escolarização. Etimologia (origem da palavra escolarização). Escolarizar + ção.
O artigo veiculado pelo site, Educação e Escolarização: quem são os responsáveis nesse processo, busca esclarecer essa miscelânea, citando uma frase do professor, filósofo e escritor Mário Sérgio Cortella, que diz, “a educação é a formação de uma pessoa – responsabilidade dos pais – e a escolarização é um pedaço da educação”.
Na interpretação, pela junção do que diz os dicionários, à explicação do filósofo Cortella, o site propõe à seguinte conclusão:
“Ao analisar estes dois termos, educação e escolarização, é possível verificar que a educação abrange a escolarização e muitas outras áreas que compõem a rotina do ser humano. A escolarização busca mostrar e preparar o indivíduo quanto ao mercado de trabalho, ao aprimoramento do conhecimento múltiplo, ou melhor, os diversos tipos de inteligências, como a inteligência lógica, a linguística e a musical. São termos diferentes, mas relacionados, onde a escolarização é um componente da educação.” Vítor Luis Nogueira Moura Educação e Escolarização: quem são os responsáveis nesse processo?
Entendemos a partir dos autores citados, o quanto pode ser confuso e manipulável a ideia de educar escolarizando, sem que a escolarização se sobressaia, em detrimento da educação, ou, que essa perca seu sentido por ser fomentada por ideologias governamentais.
A professora Fabiana Fernandes Ribeiro Martins(2013), colabora com nossa discussão citando o texto de Gert Biesta, autor do livro “Para além da aprendizagem”:
“(...) Como analisar as implicações sociais da e na educação sem antes levantar a problemática da existência e da finalidade da própria educação, da própria escola?
Pensar a escola tendo como principal função a aprendizagem, como fazem otimistas e pessimistas, é, para o autor, simplificar o conceito de educação.(...)” Fabiana F. R. Martins - Professora da Faculdade de Educação(UERJ)
Percebemos mentes brilhantes e românticas em luta por um pensar e fazer autônomo, em busca de uma transformação que, tenha como base um resultado duradouro proveniente de uma introspecção, produzem grandes materiais literários, sempre à luz da sua formação acadêmica, a qual os moldaram. Mas, onde vai parar tanto ânimo, tanta paixão, quando confrontados com o poder e com a realidade fora dos muros da faculdade?
Conforme texto do professor e pesquisador: Márcio Ferrari (10/2008), acessado no site NOVA ESCOLA, segundo Pierre Bourdieu, o “investigador da desigualdade”, a educação é reprodutora das desigualdades:
“O livro A Reprodução (1970), escrito em parceria com Jean-Claude Passeron, analisou o funcionamento do sistema escolar francês e concluiu que, em vez de ter uma função transformadora, ele reproduz e reforça as desigualdades sociais.” apud Márcio Ferrari(2008).
A educação pensada por Paulo Freire, para alguns entendidos em educar é a ideal, visto que, não são os conteúdos que levariam o educando à necessidade e à sua reação, mas o contrário. Segundo essa perspectiva o prazer de aprender está na identificação do porquê aprender, e o que aprender, isso partindo da identificação do que o oprime e estigmatiza.
Estranho é que, tudo isso é aceito e apresentado como o melhor, mas, na prática, essa forma educacional não se torna hegemônica, não passando de uma espécie de manutenção da dicotomia conservadora/progressista, mas que vem promovendo dizeres como: "o importante é o salário no final do mês", além de uma exacerbação de egos, devido às muitas especializações na área, as quais, colocam o professor como ator principal nesse ato. Lembrando que se aquele investimento cultural e inculcador der certo, ninguém lembrará que foi pela educação, por meio do professor, mas, se der errado, é o docente que arcará com o ônus.
Segundo Fabiana Fernandes:
"No livro Para além da aprendizagem, Biesta, defende que a teleologia educativa é sustentada por três eixos: a qualificação, a socialização e a subjetivação(...).
O segundo eixo que sustenta esse tripé para não se tornar reprodutor, mas também para não deixar de exercer a importante função que lhe é dada, deve trabalhar, sugere Biesta, sobre um estudo reflexivo e historicizado da sociedade para formar pessoas que não sejam nem reprodutoras, nem destruidoras do mundo”. Biesta, apud Fabiana Fernandes.
Podemos depreender, até o momento, que a educação escolar é pensada para ser um complemento na formação do humano, o qual começou seu aprendizado, no micro social, representado por sua família, e a ele, é apresentado o macro, na escola. Entretanto, a escola pensada por Freire, deverá ajudá-lo a encontrar, identificar e enquadrar-se no seu meio, e tornar-se capaz de querer modificar, ou não, tal cenário. E o professor é o impulsionador desse novo indivíduo. Por quanto, como escola e professor podem dar essa resposta, visto que os ditames têm seu ritmo marcado pelo humor do governante?
Hoje, em pleno século XXI, ano 2023, o Brasil, saiu a um ano de uma administração que tinha como prioridade na educação formal, apenas disciplinas como português e matemática. Outros, antes daquela, também retiraram da grade escolar, disciplinas como sociologia e filosofia, dizendo não serem prioritárias.
Ainda segundo Biesta, apud Fabiana Fernandes: "(...) o aprender seria mais um processo de reação a um distúrbio, resposta a uma desintegração, do que a posse de um conhecimento. É, pois, um desafio: coloca o sujeito numa posição em que precisa mostrar quem ele é e onde ele está, força-o a pensar e afirmar sua “vinda ao mundo”. apud Fabiana Fernandes.
A educação deveria abrir o casulo, libertar, ampliar visão. Ela não imporia, senão sutilmente, não deve moldar, mas despertar!
Se não trágico, seria cômica essa história, sem discordar dos autores, pois, trazem uma linha há muito sonhada por pensadores da educação, cada um com as marcas do seu contexto. Mas o engraçado é que os governos também reproduzem esse pensar, tanto, que temos leis que norteiam a educação brasileira, as quais se aproximam dessa intenção, e exigem adequações por parte dos professores. Entretanto, essa discussão não rende, pois a lei sugere uma coisa e a prática enclausura o educador, limitando-o.
Não há tempo nem suporte para que o docente leve a educação para fora dos muros, pois o exigido são notas e aprovações, não instruídos, mas números promotores de elogios. Então, vemos governos que promovem robotizados, e outros que promovem (exagerando um pouco) “analfabetos funcionais”.
A dicotomia, esquerda/direita, capitalista/socialista, aqui no Brasil, produzem uma verdadeira inquietação no fazer educação, não permitindo a evolução, seja do pensar conservador, ou, progressista, mas produzindo práticas e teorias incoerentes, devido ao choque ideológico que alcansa o interior do próprio mundo escolar.
A falta de compromisso do sistema governamental com a educação, para cobrir uma possível falha na forma de condução da educação em sua totalidade, insere a ideia de que, a família não está fazendo sua parte, partilhando a incompetência, com quem também é vítima das rupturas provocadas pela interminável luta pelo poder.
Educação tradicional ou progressista? Uma eterna bifurcação, mas também, uma forma de não responsabilização dos donos do poder, em detrimento do povo inculto, apresentado como desinteressado. Voltamos à beira da exaustão, ao sonho de mais um rompimento.
Aqueles responsáveis pela formação de opinião, vendem a ideia de que a família não colabora adequadamente e analisam escola, família e ações governamentais individualmente, sem reconhecer a investida do sistema nos setores mais importantes para a formação humana, o seio familiar e a escola. Em nome de uma pseudo liberdade, desoneram as políticas públicas e crucificam o grupo familiar, o qual, o próprio sistema já destruiu.
Na prática, a escolarização e a educação estão sendo executadas pelo estado, e aqueles que estão fora dos seus crivos, são motivos de interpelação do governo, por que não? Todavia, os milhões de educadores subjugados ao sistema educacional, e este ao pensar dominante, não conseguem imprimir nos educandos prazer em ir à escola, e os sujeitam a mais de uma década de sacrifícios.
Pais e professores, devem assumir a culpa das notas baixas, da evasão escolar e também da violência, aparentemente não há mais nada a influenciar essa relação, pois o governo está fazendo sua parte… será? Tudo isso é fundamentado em um sistema que não permite continuação e desautoriza pais e professores, mas os torna antagonistas, quando deveriam ser parceiros.
Nesse mesmo contexto, facilitam a entrada de estudantes da rede pública nas faculdades particulares, por planos pagos pelo governo, enquanto deixam de investir nos ensinos fundamental e médio. Faz todo o ensino básico na escola pública, mas o ensino superior público é para alguns.
Preocupa-se com alimento, acesso, acomodações, isso não é o mesmo que engordar um porco, enquanto lhe tira a liberdade e o prepara para o sacrifício?
Aparentemente, não há saída. A educação deve continuar sendo uma responsabilidade do estado, mas é preocupante a incoerência entre os ditames e enunciados sobre educação e sua prática.
Finge-se uma educação, escolariza-se conforme a necessidade notada pela situação, enquanto fica cada dia mais evidente a falta de educação, no aumento da violência, na falta de reivindicação de direitos, mas também na passividade com que se encaram as doações das empresas nacionais aos grupos internacionais, sem falar na depredação dos próprios prédios escolares, todavia, temos comida nas escolas, e crescemos no ranque da ONU, por ser país preocupado com a educação.
Por que o jovem e sua família devem morar em situações sub humanas, sem perspectiva, onde tudo pode promover o desentendimento, mas a certeza que na escola tem comida? Por que não, comida na mesa, moradia digna, emprego, respeito com os cuidadores, e também comida na escola, já que sonham tanto com escola integral.
As leis dizem que os pais precisam acompanhar e ter contato com a escola de seus filhos, e isso é, notadamente, relevante para a boa evolução do aluno, além de ser também uma reivindicação das escolas, entretanto, eles precisam trabalhar, mas a declaração de comparecimento nas reuniões escolares, não servem para comprovar a ausência no trabalho, nem mesmo em empresas públicas, e isso não é discutido, por quê?
O governo banca muitos cursos técnicos, mas também seleciona aonde e quais vão ser ofertados, retirando o tratamento de igualdade, ou iguala demais, a ponto de deixar de ser equânime, então uns terão mais oportunidades que outros. O ditado “o céu é o limite”, não funciona para todos, para a maioria não há céu.
Os povos originários brasileiros que não aceitassem estar sob a botina do branco, estaria fugitivo ou morto. Hoje, apesar das leis de direitos humanos, ainda tem moradores sobre esgotos ao ar livre, em áreas de mananciais, embaixo de pontes, ruas e viadutos, pessoas morrem nas filas de hospitais, mas o governo está investindo na educação, na escola tem comida. Os alunos não sabem aonde usar o conteúdo ensinado, e pouco se interessam por questões sociais, enquanto isso, há um aumento na estatística de violência e de viciados em entorpecentes.
Qual a diferença entre o país invadido e precisado de salvação, sob a ótica do invasor, e um país em que retiram da população seus empregos, dificultam o acesso à moradia, a alimentos e outras coisas básicas como a saúde, e depois se apresentam como salvadores da pátria, sob a ameaça de que sem eles, aquilo que é direito pode ser surrupiado.
Viva o recomeço!!!
“A escola tem que dar ouvidos a todos e a todos servir. Será o teste de sua flexibilidade.” Anisio Teixeira